domingo, 20 de dezembro de 2009

Monge Haritani.... simplicidade e sabedoria!!


Na sexta-feira, dia 11/12, cheguei ao Templo Budista como de costume para mais uma aula de origami, as 18h30. Saindo do carro, com minha caixa de papel em mãos, fui saudada pelo professor de karatê Aroldo: "Hoje não vai ter aula professora. O Monge Haritani faleceu..."


A frase levou algum momento para ser compreendida... Por mais que tente praticar o budismo, o princípio da impermanência muitas vezes não é fácil de ser entendido... Uma lágrima correu minha face. Esse foi vazio que senti de imediato... No Ofício realizado em sua homenagem, deixei com ele, em sua esquife, alguns origamis que ele tanto apreciava!!


Transcrevo aqui, na íntegra, a mensagem que o Monge Sato deixou no blog, no site do Templo em sua homenagem.


E também minha eterna gratidão e lembranças a esse homem pequenino, mas de uma grandeza, simplicidade e sabedoria que ficarão para sempre!!!


Já sinto saudades do seu sorriso, das cantigas de criança cantadas em japonês, dos desenhos de profunda reflexão ao final do Ofício, das visitas simpáticas durante as aulas de origami!!


Namandabu!!


" Na sexta-feira, dia 11 de dezembro, às sete horas da manhã, ele dirigiu-se à Casa do Grande Sino do Templo, deu a primeira badalada e deitou-se embaixo do sino para ser recebido pelo Buda Amida na sua Terra Pura.


Apanhou muito na vida. Literalmente. Chegou ao Brasil há quarenta anos em busca de novos horizontes, sozinho, deixando seus pais e irmãos no Japão. Após alguns anos trabalhando nas plantações de uvas e nos cafezais do oeste do Paraná, estabeleceu-se na cidade de Londrina para difundir o karatê que cultivara na sua terra natal. Ainda uma arte exótica, deu a própria cara para apanhar, enfrentando valentões que vinham desafiá-lo. Firmou o conceito da sua academia e formou centenas de praticantes. Casou-se com uma brasileira nissei e teve dois filhos. Obteve o título universitário de professor de educação física.


Famoso pela sua arte, estimado pelo seus alunos, admirado pelos concidadãos, um dia decide visitar o Japão com a esposa e experimentar a vida de dekassegui como trabalhador temporário recrutado pela economia japonesa em expansão. Nesse intervalo, a sua esposa, que voltara antes ao Brasil, falece e ele não chega a tempo.


Decide tornar-se monge budista. Continua trabalhando de dia e se matricula no curso oficial de formação de monges para estudar a noite e fazer as lições de madrugada. Mais dois anos para retornar ao horizonte brasileiro.


Como monge responsável do Templo, convido para vir à Brasília, aceito após relutância inicial, pois queria fixar-se em Londrina. Aqui passa a coordenar as artes marciais e a exercer efetivamente a função de monge-assistente, com muita humildade e dedicação. Durante quase cinco anos, esteve em todos os ofícios e fez questão de bater o Grande Sino, tanto de manhã como de tarde, sem nenhuma falta ou atraso. Criou um método próprio para difundir os ensinamentos budistas em português com uma linguagem simples e o uso de desenhos ilustrativos em que era muito habilidoso. Dirigiu sessões de meditação cantada. Deu aulas de língua e caligrafia japonesas.


Sofreu com o preconceito institucional da organização religiosa e a incompreensão dos filhos, embora em Brasília formasse novos admiradores.


O seu cotidiano expressava a aceitação plena da Luz que nos abraça como somos e onde estamos, incondicionalmente. Era a representação mais que eloquente de uma criança que todos nós somos, na sua teimosia e ternura, na sua fragilidade e inteireza, na sua sociabilidade e solidão, na sua alegria e tristeza, mas sempre abrigada na Compaixão e Sabedoria do Buda. A sua prática diária confirmava, a todo instante, a sua certeza e confiança na Terra Pura.


Tinha problemas crônicos de saúde, apesar dos cuidados carinhosos dos alunos dedicados e das pessoas mais próximas. No ano passado, recebe o título de cidadão honorário de Londrina. Em julho deste ano, recebe diretamente das mãos do bispo a confirmação oficial da condição de monge. Nunca o vi tão alegre.


Hoje me dou conta que, desde então, passou a se despedir dessa vida mundana. As suas falas se tornaram mais diretas e convictas de agradecimento à vida e ao Buda. A mim, pessoalmente, deixou sugestões preciosas e precisas em como dar continuidade ao processo de Ecô, difusão dos méritos do Buda no Brasil.


No seu último dia de vida entre nós, caminhou sozinho até a Casa do Sino e deu uma badalada para ir descansar na Terra Pura de morte natural. Tinha sessenta e três anos. Faltaram mais nove badaladas para completar a série que deixou para nós.


Na homenagem que aqui prestamos, a nave do Templo ficou lotada, desde dos alunos das artes marciais e de cultura japonesa, jovens em geral que o adoravam, os japoneses pioneiros e fundadores do Templo, o pessoal do coral que sabia que ele gostava de cantar e os adeptos da meditação budista, até os vizinhos e antigos discípulos de Londrina. Muitos depoimentos emocionantes de contatos pessoais de bondade amorosa e inteligência espiritual. Foi uma demonstração viva de que ele foi o grande elo de interação budista entre esses vários grupos.


Em Londrina, para onde acompanhamos o corpo para ser sepultado ao lado da mulher amada, a mesma coisa aconteceu no salão principal da academia que ele fundou e mais tarde no Templo Budista, inclusive com a presença de autoridades. O mais importante foi a reconciliação plena que teve com o filho, presente desde o primeiro momento.


Perco mais um companheiro valioso de vida. Mas sua prova em pessoa de Mente Confiante do Buda Amida - shinjin - ficará para sempre."





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